
Se não há justiça para o povo, que não haja paz para os governantes. A frase do líder revolucionário mexicano Zapata bombou na internet brasileira, postada por jovens ativistas em seus twitters e perfis de redes sociais.
Todos inconformados com a alta das tarifas de ônibus urbanos. Patrimônio, público e particular, depredado. Pessoas desrespeitadas, espancadas, apedrejadas e feridas.Barbárie de autoridades até com jornalistas. Banalidade do mal nas ruas e on line.
No The Telegraph, de Londres, em primeira página, o flagrante da PM paulistana, armada à moda medieval, espancando casal de ativistas abraçados e desarmados. A ong Jornalistas Sem Fronteira denunciou na mídia mundial a violência da PM.

Em Paris, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse que os protestos são atos de vândalos. O prefeito Haddad (PT), também em Paris, disse ser impossível um subsídio de R$ 6 bilhões por ano, e que aumentou a tarifa de R$ 3,00 para R$ 3,20, abaixo da inflação. Unidos no infortúnio dos protestos, e na satisfação da viagem à Cidade Luz, os dois adversários defendiam em Paris a candidatura de SP para sede de exposição universal. Depois da entrevista ainda tiveram tempo de jantar com o vice-presidente Michel Temer, num dos templos da gastronomia francesa.
Em SP passagens de ônibus e metrô subiram R$ 0,20, de R$ 3,00 para R$ 3,20… Mas em todo o país, a reação foi igual e contrária aos aumentos. A população parece começar a refletir em quem votou… Vejam a charge de Zé da Silva, no Diário Catarinense, ironizando os bandeirantes e os poderos de SP (PT e PSDB).

Violência gera violência… excessos de ambos os lados. Parece ter sobrado despreparo no comando da PM paulistana , práticas afastadas de modos civilizados. Norton Lima Jr postou foto do policial despejando spray de gás pimenta, – talvez com efeito moral lacrimejante – sobre a câmera de um cinegrafista. O marqueteiro sentenciou: – é burrice!

O Brasil vive a politização de um processo técnico mal conduzido, no caso do transporte coletivo urbano.Custos benefícios não são claros. São verdadeiras e misteriosas caixas-pretas, as planilhas de cálculo de tarifas lançadas sobre a população. Na falta de argumentos convincentes, o porrete, balas de borracha, bombas de efeito moral, patas de cavalos, descem soltos…

As empresas de transporte coletivo – de lobby poderoso bem organizado em todo o Brasil – doam expressivas quantias para eleger prefeitos, governadores, senadores, deputados federais e até presidente da República. O povo deixa-se levar pelos favoritos nas pesquisas (compradas e vendidas a peso de ouro). Não são poucos os que perguntam: – o que eu ganho se votar em você?
Depois, a conta vem amarga.

Esta semana esta conta política foi cobrada nas ruas das principais cidade do Brasil. SP virou praça de guerra, também houve quebra-quebra no Rio, Porto Alegre, Brasília e outras capitais. No Rio, cartaz bem humorado, avisava: – Ô fardado, você também é explorado. Em Curitiba (foto) manifestantes pediram abertura da Caixa Preta da Urbs, coisa que Fruet ainda não fez…E não vai fazer. Querem apostar?

Em SP, na manifestação de sexta, 14, criativos porretes com bolas de futebol na ponta, ironizam as estapafúrdias verbas públicas cedidas à FIFA – para a Copa das Confederações e a Copa 2014 – em comparação às verbas exíguas de subsídios e investimentos não só em transportes públicos, mas também em educação, saúde e habitação.
As Copas – das Confederações (2013 a partir desta semana) e do Mundo (2014, daqui há um ano exato) – vão gastar R$ 33 bilhões, dos quais apenas R$ 14 bilhões virão da iniciativa privada.
Em Brasília, manifestantes lúcidos denunciaram que o preço do estádio nacional Mané Garrincha daria para fazer 150 mil casas populares que o distrito federal não tem…
O povo acordou, o povo decidiu, ou para a roubalheira, ou paramos o Brasil, diz a faixa. Que tal se a maioria passar a dar-lhes razão?

As imagens que ilustram este post caíram na rede. Diego Zachetta do Estadão fotografou repórter é baleada no olho por PM- de SP – que atirou bala de borracha contra ela. Ato ocorreu no protesto contra o aumento na tarifa de ônibus e metrô, na quinta, 13. Policial estava em viatura da Rota.

Embora deploremos a violência, a barbárie, os excessos – de ambos os lados – não dá para não perceber que os protestos parecem despertar consciência política, de cidadania, na parcela mais jovem – e menos acomodada – da população.
Sobre a relação da alta das tarifas, a inflação, os protestos urbanos no Brasil, os gastos da Copa das Confederações e da Copa do Mundo, Leia Mais em Ideias: A gota que faltava, análise de Alexandre Versignassi, postada a 12 de junho no seu blog.
E pensem comigo: só a virtude dos governantes garante a felicidade do povo.